
Eu Já Não Estou Aqui
A minha vida continuou. Sem mim.
Um instante bastou para Miguel ver o impossível: o seu corpo continuou a viver sem ele.
Preso fora de si mesmo, assiste à rotina seguir em frente enquanto tenta compreender o fenómeno que o separou da própria vida.
Mas o tempo corre. Há um encontro marcado para as seis, segredos por desvendar e escolhas antigas que começam a revelar o preço do controlo, do silêncio e do amor.
Entre a urgência de regressar e o medo de já ter chegado tarde demais, Miguel terá de enfrentar uma pergunta devastadora: o que resta de nós quando deixamos de poder decidir por quem amamos?
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CARLOS BARROSO / EU JÁ NÃO ESTOU AQUI 2 Capítulo 1 O corpo continua A minha mão pousou a chávena. Eu fiquei com a minha suspensa. O som da porcelana contra a mesa foi pequeno, quase nada. Ainda assim, pareceu dividir a manhã em duas partes. De um lado, eu estava sentado à mesa da cozinha. Do outro, via-me sentado à mesa da cozinha. Demorei alguns segundos a perceber que ambas as coisas eram verdade. A mão que tinha acabado de largar a chávena afastou uma migalha do prato. Reconheci a aliança, o corte junto ao indicador e a unha do polegar, que partira na véspera ao tentar soltar um parafuso preso. Baixei os olhos para a mão que continuava diante de mim. Tinha a mesma unha quebrada. O mesmo corte. — Miguel, estás a ouvir-me? A Sofia segurava a caixa do almoço junto ao lava-loiça. Vestia a camisola cinzenta que eu dizia ter sobrevivido a mais lavagens do que o nosso casamento. Esperava uma resposta, com aquele ar de quem já tinha feito a pergunta duas vezes. Abri a boca. — Estou — disse o homem à mesa. — Disseste que hoje sais mais cedo. A minha voz. Até a pequena rouquidão que me acompanhava antes do primeiro copo de água. — Disse que vou tentar. Não é a mesma coisa.
CARLOS BARROSO / EU JÁ NÃO ESTOU AQUI 3 Ele sorriu, sem se desculpar, e voltou a pegar na chávena. Tentei recuar. Afastei-me da mesa tão depressa que quase encostei à bancada. Digo «quase» porque deixara de saber onde acabava o meu corpo. Os armários mantinham as distâncias habituais, o frigorífico deu o estalido de sempre antes de arrancar, e a janela estava aberta dois dedos para deixar sair o cheiro das torradas. Mas eu ocupava um lugar impossível naquela cozinha. Olhei para a cadeira. Estava ocupada por mim. Via a costura torta na gola da minha camisola, o cabelo mais curto na nuca, a mancha clara junto à orelha que a Sofia costumava apontar quando eu dizia que já não precisava de ir ao barbeiro. O homem não parecia assustado. Era a minha cara, numa manhã comum, a decidir se bebia mais café. A primeira explicação que encontrei foi a pior: podia estar inconsciente, caído noutro lado, a sonhar com a minha própria cozinha. Olhei por baixo da mesa. Não havia ninguém no chão. A cadeira, os quatro pés, uma meia de Leonor abandonada perto do rodapé. Tudo estava no sítio. Tudo, menos eu. — Sofia. Ela encaixou a caixa do almoço no saco. — Sofia, olha para mim. Aumentei a voz. Ou pareceu-me que a aumentei. As palavras existiam dentro da minha cabeça com a nitidez de sempre, mas não faziam o ar vibrar. A Sofia continuou a procurar espaço no saco para uma maçã. Pus-me à sua frente.
