
O Amanhã Não Esperou
Quanto tempo se pode adiar o presente?
Em 1963, José deixa o Minho com uma mala e uma promessa: em França, trabalhará o tempo necessário para construir um futuro melhor e regressar a casa.
Dois anos depois, Teresa chega a Champigny-sur-Marne. Em 1966, conhece José. Apaixonam-se e criam uma família. À medida que a Casa Azevedo cresce, também crescem as responsabilidades, os sonhos e os adiamentos.
Entre Portugal e França, atravessam seis décadas de escolhas que transformam as suas vidas. Mas, quando tudo parece finalmente ao alcance, terão de enfrentar a pergunta que evitaram durante anos: quanto tempo se pode adiar o presente?
Um romance sobre emigração, amor, família e o preço das promessas adiadas.
Obra inédita. Não disponível para compra.
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3 CAPÍTULO 1 A Partida 1963 Na manhã em que deixou Pico de Regalados, José acordou antes do sino. Ainda era escuro e a casa conservava o cheiro das achas que tinham ardido na véspera. Na cozinha, a mãe aquecia água numa panela pequena. Não acendera a luz; preferia a chama, talvez porque assim podia trabalhar sem olhar diretamente para ele. — Há pão em cima da mesa — disse. José sentou-se. A côdea estava dura nas extremidades, mas a mãe cortara-lhe a parte mais macia e pusera ao lado uma noz de manteiga que costumavam guardar para o domingo. Ele não tocou nela. — Come, rapaz. A viagem é comprida. A mãe chamava-lhe rapaz quando não queria dizer filho. José tinha dezanove anos e as mãos de quem já ajudara a levantar sacos de farinha mais pesados do que ele. Na semana anterior, quando fechara a pequena venda da família pela última vez, tivera dificuldade em tirar a chave da fechadura. A porta inchara com a humidade. O pai precisara de a empurrar com o ombro, como se a casa continuasse a resistir à ideia de estar vazia. Durante anos, a venda fora o centro dos dias: a arca de madeira para o pão, as latas de conserva empilhadas num canto, o cheiro do bacalhau e do sabão, os vizinhos que entravam para comprar meio quilo de arroz e acabavam por ficar a discutir a chuva. Primeiro tinham começado os pedidos para pagar no fim da semana. Depois, as contas riscadas e reescritas. O pai, que conhecia os fregueses desde crianças, hesitava em recusar-lhes fiado. Quando finalmente recusara, já era tarde para todos.
4 Não fora uma ruína de um dia. Fora pior. Cada mês desaparecera uma pequena coisa sem que ninguém soubesse apontar o momento exato em que a casa deixara de ser suficiente para os sustentar. O pai entrou na cozinha com o casaco posto. Colocou sobre a mesa um envelope dobrado. — É o que consegui juntar. José abriu-o só o bastante para ver as notas. Voltou a fechá-lo. — Já me deste dinheiro para a viagem. — Isto é para chegares lá. — Faz-vos falta. O pai puxou uma cadeira, mas não se sentou. — Se ficassem as coisas como estão, fazia-nos falta tudo. Leva. Houve um silêncio em que a mãe pousou a colher na mesa para não fazer barulho. José teve vontade de prometer que mandaria dinheiro logo na primeira semana. Já ouvira essa promessa a outros homens e sabia que uma semana num país desconhecido podia durar uma vida inteira. Limitou-se a guardar o envelope no bolso interior do casaco. Lá fora, a madrugada avançava devagar sobre os campos. O ar tinha o frio húmido da terra lavrada. José caminhou até à antiga venda. A tabuleta ainda lá estava, torta. Por detrás do vidro da montra, via-se uma caixa vazia e uma balança de dois pratos. Ele reconheceu o lugar onde, em pequeno, se escondia quando o pai o procurava para levar recados. Um dia perguntara por que motivo o pai pesava o açúcar duas vezes. «Porque se erras para o lado do cliente, perdes; se erras para o teu lado, também», respondera-lhe. José nunca esquecera essa frase. Agora parecia-lhe que o pai passara a vida a perder dos dois lados. — Não precisas de olhar mais para isso. O pai parara atrás dele. — Eu sei.
